Em tempos de ressaca

Por Daniela Dariano

Vivemos ainda a ressaca da euforia dos anos 60. Depois de embriagarmo-nos em ideologias de toda a sorte, de direita ou de esquerda, já nem sabemos o que esses termos representam hoje em dia. A universidade, que foi outrora um centro de formação político-ideológica, peça importante do motor da história brasileira, vive hoje um período de apatia. Sem sequer comentar sobre aqueles universitários cujas máximas preocupações são o próximo “finde”, falemos dos que se acham politizados por ostentarem fitas e bandeiras de candidatos em véspera de eleições.

Muito dos que votaram a favor de um governo de esquerda (e aqui no Rio Grande do Sul, principalmente na capital, foi a maioria) pouca noção tinham ou têm do que isso significa. Ser de esquerda está na moda. Mais do que uma orientação ideológica, ser esquerdista passa a ser uma extensão do “revival” da estética dos anos 60. Representa o nobre desapego às coisas materiais, opondo-se ao capitalismo que se instalou, aparentemente, para ficar.

Fachada. Compramos roupas “hippies” a preços, às vezes, mais caros do que os das ditas “yuppies” . Frequentamos universidades, se não pagas, ao menos muito foi gasto para que nelas ingressássemos. Chegamos lá e dizemos, inflando o peito, orgulhosamente: SOU MARXISTA! Mas não sabemos ao menos o que é marxismo. Mal lemos o jornal, reclamamos da quantidade de livros que “temos” que ler.

Ainda há o outro lado da moeda: os da direita. Esses votaram no Britto, no FHC, queriam a Ford e também não sabem o porquê. Não cometamos injustiças. Havia muitos que o fizeram “conscientemente” por interesses pessoais momentâneos.

A discussão parece restringir-se a Olívio ou Britto, à Ford que vai ou fica. Há semelhança de uma disputa entre torcedores de time de futebol. Vestimos uma camisa porque “meu pai é gremista”, “toda a minha família é colorada”. Onde estão as disputas ideológicas? Os debates? Os suados discursos inovadores? Vale perguntar, primeiramente, onde está a ideologia?

A história reservou-nos um momento de desilusão, quando os sonhos de uma sociedade igualitária, representados pelo socialismo, caíram por terra junto aos regimes triunfantes de outros tempos. Restou-nos uma democracia fajuta onde quem menos decide é o povo. Que espécie de povo escolheria um estado de permanente miséria? Mesmo assim, marcados pela ditadura castradora, é o que nos consola.

Diante do indiscutível triunfo capitalista, ficamos pasmados e conformados. Talvez, desejando que alguém lá de cima (do governo federal ou, quem sabe, do céu) melhore alguma coisa. Esperamos assistindo à televisão ou ao som de Caetano Veloso (que tem música para esquerdistas nostálgicos e yuppies faceiros).

Tiramos a culpa de nossas costas, deixamos um vazio. Parece que o voto teve também esse poder: de esvaziar a juventude de originalidade e de crítica embasada.

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