Entrevista – Paulo Roberto Falcão

 Por Nestor Tipa Júnior

Paulo Roberto Falcão foi um dos grandes ídolos do futebol brasileiro e mundial dos anos 1970, 1980 e de todos os tempos. Iniciou sua carreira no Internacional, ganhando o tricampeonato brasileiro em um dos grandes times do futebol nacional. Nos anos 1980 jogou pela Roma, da Itália, conquistando títulos por lá e transformando-se no “Rei de Roma”. Também fez parte de uma das melhores seleções que o Brasil já teve, a da Copa de 1982. Uma seleção que não tinha adversários, mas parou na Itália na conhecida “Tragédia do Sarriá”. Falcão ainda jogou a Copa de 1986 e terminou sua carreira no São Paulo. Foi treinador da seleção brasileira, além de ter treinado a seleção japonesa, o América do México e o Internacional, time que o projetou para o futebol. Hoje, Falcão é comentarista esportivo da Globo. Em entrevista ao 359 na Copa, ele fala um pouco sobre o atual momento da nossa seleção.

 

359 Online: O que você achou da lista dos 22 convocados por Zagallo para representar o Brasil na Copa da França?

Paulo Roberto Falcão: A lista está boa. Alguém vai lembrar do Muller, do Mauro Galvão, enfim, de outros jogadores. Mas acho que a lista está boa. O problema não é a lista, e sim a maneira que ele vai usar os jogadores dentro do time.

 

359: Mesmo com os maus resultados dos últimos jogos, o Brasil pode acreditar no penta? Que obstáculos o Brasil irá enfrentar?

Falcão: O maior obstáculo do Brasil é o próprio Brasil. A formação do time, a esquematização, que é o problema da defesa que nós temos de posicionamento da defesa, de marcação. Esse eu acho que é o nosso maior obstáculo. Se o Brasil tiver uma boa marcação, se tiver condições de jogar o futebol que sabe jogar no aspecto técnico, é o grande favorito. Pode enfrentar equipes fortes como a Alemanha, a Itália, a França, a Inglaterra, seleções com muita tradição, e perder se não se organizar em termos táticos. Mas se o Brasil se organizar em termos táticos, somando-se ao talento dos nossos jogadores, aí fica difícil de perder.

 

359: Quem você acredita que possam ser os favoritos para a conquista da Copa? E as zebras?

Falcão: Os favoritos seriam esses que eu já citei: Brasil, Itália, França, Inglaterra, Argentina, enfim seis ou sete seleções fortes. Zebras, diríamos uma Iugoslávia, uma Croácia. A Nigéria não seria zebra porque já ganhou uma olimpíada. A Noruega talvez esteja em um bom momento.

 

359: Você jogou duas Copas do Mundo, conhece o clima da competição. Como é este clima? O jogador pode sentir esse clima?

Falcão: Eu me lembro de quando estava na Copa do Mundo, que nós ficávamos sabendo de muita pouca coisa que acontecia lá fora. Hoje como jornalista que eu já fui em duas copas do mundo, 1990 e 1994, e eu pude sentir exatamente tudo aquilo que eu não sentia como jogador. O jogador que está concentrado, está em um ritmo de trabalho, das refeições, treinamento e descanso, ele realmente fica completamente por fora das coisas que estão acontecendo em torno, que é uma loucura. Mas você precisa estar fora. O jogador que está dentro do hotel eles não sentem o que está acontecendo ao seu redor. O que eles sentem é a expectativa do Brasil inteiro torcendo por eles. Isso sim eles sentem.

 

359: Pela própria experiência vivida como treinador da seleção, você acredita que há um exagero da torcida e da imprensa com o trabalho do Zagallo ou eles têm razão ao criticá-lo?

Falcão: A imprensa cobra muito. É natural o treinador da seleção brasileira sentir muitas pressões, enfrenta muito isso. Mas eu acho que pode-se dizer que todo brasileiro tem seu time na cabeça, todo brasileiro tem sua lista. Nada mais justo e certo que o treinador ter o seu time e a sua lista. Isso faz parte do trabalho.

 

359: Que lembranças você tem da copa de 1982, do grande time e da tragédia, onde o Brasil era apontado como grande favorito pelo futebol arte?

Falcão: O Brasil se tornou favorito pelo futebol que jogava. Um futebol envolvente, bonito, voluntário, um futebol de toque. Enfim, era uma seleção diferenciada. Mas enfrentou uma outra seleção forte, em um grande dia, que era a Itália, e não conseguimos fazer uma grande partida também, e eu acho que foi o destino naquela ocasião. Acho que o futebol teria mudado se o Brasil tivesse ganho aquela copa do mundo. Predominaria o futebol técnico, de habilidade, coisa que não predominou. O que predominou depois foi o futebol de marcação, o futebol de pegada, o que eu não tenho nada contra. Acho que o futebol tem que ter marcação, tem que ter pegada, e depois vem a técnica individual dos jogadores. Mas acredito que mudou um pouco na medida em que o Brasil não ganhou aquela competição.

 

(Publicado originalmente na Edição 1, de 23 de março de 1998)

 

sobre o autor

Nestor Tipa Junior
Jornalista, fundador da 359 Online. Trabalhou nos principais veículos de comunicação do Rio Grande do Sul (Rádio Gaúcha, Rádio Guaíba, Zero Hora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, Canal Rural e Rádio Rural). Especializado no agronegócio, conquistou 17 prêmios de jornalismo na carreira. Atualmente é fundador e sócio-diretor da AgroEffective Comunicação e Agronegócio, agência de comunicação que atende entidades e empresas do setor rural.

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