A culpa é da DC

 Por Fernando Antunes Jr.

Tenho 2010 como o meu último ano de jornalista. Larguei a carreira para me dedicar à docência em cursos de jornalismo, publicidade e relações públicas. Desde então, pensei que nunca mais escreveria uma crônica sequer por conta dos desgostos que a profissão me provocou ao longo do tempo. Entendam, é que minha vida de foca começou na 359 Online. O site mais libertário no qual já trabalhei. Foi na 359 que escrevi mais livremente sobre os mais diversos assuntos. Quando fui para o mercado, não conseguia sair das pautas catastróficas. Não sou uma pessoa que digere bem tragédias, mas, como preconizava nosso querido Jacques Wainberg, “a boa notícia é a má notícia, e o jornalismo vive do pior do ser humano”. Saí seguro da decisão. Já tinha sido repórter, produtor, fotógrafo, editor de web, assessor de imprensa… Desempenhei inúmeras outras funções e até ajudei a fundar uma cooperativa e uma agência de comunicação integrada. Estava satisfeito com a experiência  e me sentia pronto para me dedicar à pesquisa acadêmica.

Até que, no fatídico ano de 2013, a DC resolveu relançar a história de origem do Superman nos cinemas. Sempre digo que foi neste fatídico ano que tudo saiu dos eixos. E tudo começou naquela cena medonha do Superman quebrando o pescoço do General Zod no final do filme (spoiler alert! Ops! Acho que foi tarde, enfim…). No Brasil íamos para a rua protestar contra os 20 centavos. Era uma sensação boa ver os jovens se organizando pela internet para lotar praças e avenidas. A ideia de um movimento apartidário me remeteu ao ideário anarquista do qual sempre fui admirador. Parecia uma boa ideia, assim como talvez tenha parecido ao Zack Snyder e à DC transformar o maior herói da cultura pop ocidental em um assassino.

Nenhum personagem representou tanto o arquétipo do herói no ocidente quanto o Superman. Símbolo de poder, magnitude e invencibilidade, o homem de aço também se tornou símbolo de altruísmo, benevolência e misericórdia. Um de seus lemas nos quadrinhos era “pela verdade e pela justiça”, o que o tornava o ser ideal que Platão acreditava sermos todos nós quando saíssemos de nossas cavernas interiores. Uma utopia a ser perseguida para um estado de consciência poderoso, cujos dilemas viscerais foram muito bem ilustrados nos filmes estrelados por Cristopher Reeve dos anos 70. Lá, o Superman do auge da Guerra Fria era capaz de conter a corrida armamentista. Com a força de mil homens, usava do diálogo para convencer os líderes globais a aceitarem sua ajuda para acabar com o terror nuclear. E o fundamental desta personagem era seu apreço pela vida e sua recusa em usar seus poderes para matar. Em essência, esta característica do primeiro super-herói dos quadrinhos foi a base fundante de todos os outros que viriam depois dele.

Mas Snyder, em entrevista a um site de entretenimento brasileiro, defendia sua versão do homem de aço dizendo que “no mundo de hoje, não havia mais espaço para a inocência”. Esta frase, cheia de explícitos e implícitos, representava bem os movimentos de 2013. O desenrolar daquelas aglomerações apartidárias geraram monstrengos pseudo sociais piores que o Apocalipse, aquele mesmo que mata o homem de aço no filme “Batman VS Superman” (oops, spoiler alert again! Sorry!). A falta de uma bandeira clara encorajou algumas mentes maquiavélicas a surfarem na onda do ativismo cibernético. Robôs da internet e ghost writers cibernéticos inundaram nossas timelines com discursos de ódio. Ódio aos políticos, ódio a partidos, ódio à vida pública, ódio aos bandidos, ódio às artes, ódio aos direitos humanos… E desde então vivemos uma vida polarizada onde ideologias contraditórias disputam os lugares de herói e vilão na narrativa político-jurídica brasileira.

Em meio ao mundo da “pós-verdade” e suas fakenews, chega a constatação de que a figura do jornalista nunca foi tão necessária. Somos a última fronteira entre a megalomania neurótica dos Lex Luthors fascistas e a jornada messiânica dos heróis inconsequentes para os quais matar, às vezes, se justifica. Depois do que Zack Snyder e a DC fizeram com o Superman, acho que Platão apostaria em Clark Kent como o ideal a ser seguido fora da caverna da ignorância na qual todos estamos imersos.

A inocência talvez tenha acabado. Foi quebrada junto com o pescoço de Zod, rasgada com as bandeiras dos movimentos de 2013, e chamuscada nos vômitos verborrágicos da internet desde então. Mas a esperança, essa não morre. Ainda tenho esperança que a DC se desculpe com o Mundo pelo que fez com o Superman. Assim como tenho esperança que o discurso de ódio se dissolva diante da informação e do conhecimento. E é por isso que, 20 anos depois, talvez sem a inocência dos jovens focas que a começaram, a 359 é tão necessária nos dias de hoje. Voltei a escrever pela 359. E a culpa é toda da DC.

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