Móveis de mogno: está mais do que na hora de cortar essa ideia

 Por Ana Lúcia Nunes

“Sabe aquela estante bonita de mogno que você sonha comprar, a porta que vai embelezar a entrada de seu apartamento ou a linda cama de madeira avermelhada exposta na loja perto da sua casa? Na maioria das vezes, elas foram arrancadas de forma predatória da Floresta Amazônica por madeireiras que não hesitam em recorrer ao roubo, morte, invasão de terras indígenas e áreas de proteção ambiental. Sem contar a sonegação de impostos, contrabando, salários miseráveis, elevados índices de acidentes de trabalho e corrupção. Tudo isso bem ali, na vitrine das lojas das principais cidades do país: invisível, a destruição transformada em objeto de desejo” (Diário de Bordo – inverno de 1998).

Até o momento, já foram destruídos cerca de 415 mil quilômetros quadrados de floresta, uma área equivalente à de um Estado de São Paulo e meio. Hoje, enormes fazendas de gado, que geram poucos empregos, dominam a paisagem de devastação deixada pelas madeireiras.

Segundo estimativas oficiais, entre 1971 e 1990, pelo menos três milhões e 100 mil metros cúbicos foram arrancados e exportados da Amazônia, sendo que, para cada árvore extraída, 28 outras são danificadas e 1450 metros quadrados de floresta são destruídos no momento do desabamento. As consequências para a fauna e a flora são lamentáveis.

Um dos fatores mais alarmantes da exploração da espécie é a invasão de áreas indígenas e de reservas ecológicas. Em média, noventa grupos e algumas tribos vivem na área em que é encontrado o mogno, como é o caso dos Nambikuaras e dos Uru-eu-wau-wau, que têm sofrido constantemente roubos e invasões.

As madeireiras, que se apresentam como produtoras do desenvolvimento no norte do país, produzem apenas danos ecológicos e sociais, além de um verdadeiro caos econômico, pois a sonegação de impostos chega a 95%. As evidências deixam clara a situação de corrupção e o total descontrole do comércio internacional da madeira.

É característica deste sistema predatório a abertura irresponsável de estradas em direção à floresta. Por esta espécie ser muito dispersa, é preciso que se avance centenas de quilômetros para encontrar o mogno. Existem mais de 3 mil quilômetros de estradas ilegais, apenas no sul do Pará, que passam por áreas protegidas e Terras da União. Esse tipo de ação é considerada um crime ecológico.

O resultado da produção das madeireiras é quase totalmente exportado (90%), basicamente para a Grã-Bretanha e Estados Unidos. O que ainda resta do mogno brasileiro continua sumindo. Esse movimento precisa ser detido antes que nossa floresta seja totalmente transformada em mesas, estantes, portas e tampas de privadas.

sobre o autor

Andreia Odriozola
Jornalista, tradutora, metida a fotógrafa e amante de tecnologia. Trabalhou no jornal O Sul, portal Terra e em agências de comunicação corporativa e assessoria de imprensa. Atualmente, desenvolve também projetos de conteúdo especial.

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