Ironia contraditória

 Por Andréia Odriozola

O destino sempre teimou em me levar no contra e testar minhas certezas. Quando julgava que devia seguir por um lado, a vida me empurrava para outro sem me dar tempo de pensar – e isto é bom! Bem-vindo, mundo desconhecido! De novo. Pois assim continuará sendo. Minha trajetória foi construída em base a contradições e desafios.

Fiz a faculdade focada em televisão. Não cogitava outra alternativa, trabalhar com imagens era um desejo de criança. Ou então ambicionava fazer grandes reportagens de política e polícia (pasmem! sim!). Torcia o nariz para revistas de fofoca e afirmava com pose e arrogância que aquilo não era jornalismo.

 

Tempo de aprendizado

  Consegui meu primeiro emprego um mês depois de formada. Num jornal impresso. No setor de cultura. Escrevendo perfis de celebridades. Nada de TV, muito menos de assuntos sérios. Imagine agora uma reunião de pauta e pense que a sessão paparazzi dela me transformava no alívio cômico do dia…

E eu estava feliz como nunca!Minha chefe me incentivava a voar e a usar toda a criatividade de que era capaz.  Logo na primeira semana, percebi que precisava me desfazer de conceitos e amarras  entranhados desde a universidade, e vi que entretenimento tem a função de ser leve. Acredito que até hoje meu estilo de texto tem essa característica, moldada no jogo simples de palavras. Obrigada, jornal O Sul. Foi um período mágico.

Nisso, o destino brincalhão entrou em cena, fundei uma cooperativa de comunicação com amigos de faculdade, com o firme objetivo de produzir materiais impressionantes e memoráveis. Beeeeem… Aprendi que sonho não enche barriga e que amizade não basta para manter um negócio em pé. Né? Apenas um adendo: nessa época, fui editora de uma revista de alta gastronomia. E eu odeio cozinhar.

Tempo de crescimento

Fui então trabalhar com comunicação corporativa.Entendi que, mesmo nesses casos, uma boa história supera formalidades. A bagagem dos estágios e do jornal me ajudou a construir publicações do início ao fim. Houve momentos em que ouvir se fez fundamental, independência teve o seu limite e regras estavam ali para serem seguidas, ainda que não concordasse com elas.  Exercitei a paciência, inspirei pessoas e descobri que educação e simpatia conseguem milagres . Inclusive alterar processos, se isto for feito com calma e sustentação.

A jornada aí me empurrou para assessoria de imprensa, o que eu mais abominava na face da Terra. Implorar por uma notinha? Escrever para colunista preguiçoso? Não levar o crédito por entrevistas? Ser xingada por negar credencial? Tem tudo isso. Só que era na área de cultura e os clientes eram produtoras ou entidades artísticas.

Conheci todo tipo de backstage, adentrei camarins, me aprofundei em música e colecionei crachás de staff. Entre o vai e vem do percurso de redações, joguei bola com a banda Simple Plan, ganhei um beijo de James Blunt, um sorriso de Alanis Morrissette, um agradecimento especial do maratonista Dean Karnazes. Evitei uma catástrofe no show de Jorge Aragão (porque ele havia esquecido de trazer o sapato da sorte), passei uma tarde numa van com a Cachorro Grande, explorei uma parte da história do país com o filme Brasil Holandês, e foi um deleite. Faltava apenas a assinatura.

Acha que tive isso? Nah! Meu próximo passo foi internet, no setor de Projetos Editoriais do Portal Terra. O máximo que consegui nesse sentido foi nome em manual. O incrível é que me dei conta de que também não tinha necessidade disso.  Liberta enfim de qualquer convicção , liguei o modo varinha de condão. Em Produtos web, tudo se faz possível.

Tempo de recomeço

Que falar do Terra, além de que foram mais de seis anos de paixão? Não escrevi uma única linha de matéria, mas coloquei no ar páginas e páginas. O site de Eleições, com sua apuração em tempo real, os jogos Pan-Americanos de Guadalajara, com suas 15 transmissões ao vivo… As Olimpíadas de Londres, com as 45 transmissões simultâneas gratuitas para 10 países.

Página de transmissão ao vivo das Olimpíadas de Londres

Fui a responsável por criar as telas das ferramentas que os jornalistas usavam para narrar as competições, os jogos de futebol e subir os vídeos ao vivo.  Desenhei publicadores, me especializei em formulários , fui atrás de cursos de usabilidade e arquitetura de informação. Dei treinamentos para outras equipes, encontrei uma forma de falar em público sem me apavorar.

Viajei a São Paulo, Recife, Austin, Miami e Cidade do México.

Aliás, na capital mexicana morei por quase dois meses, desenvolvendo um projeto dentro de uma incubadora tecnológica e dividindo apartamento com as minhas colegas de aventura – uma argentina e duas mexicanas, que eu acabava de conhecer. Com elas e nosso anfitrião na Wayra, mergulhei em outra cultura e me desprendi do óbvio.  Me enxerguei pelo olhar do outro , e essa foi talvez a experiência mais rica em toda a minha vida.

Tempo de questionamentos

Além do assombro ao constatar que pirâmides literalmente falam com as vozes do passado, houve um encantamento com um cenário futurístico no qual tudo estará – ou já está – conectado.  Internet das coisas e inteligência artificial são um fato, não mais uma tendência . Estamos assistindo ao início da escalada em progressão geométrica de uma realidade que, em breve, alterará a rotina e as relações humanas de uma forma que mal somos capazes de conceber.

Por isto mesmo, recai sobre nossa geração a responsabilidade de pensar a respeito de que sociedade queremos construir. Quais as barreiras éticas para o uso da tecnologia? Que dados concordaremos em divulgar a uma rede impessoal? Como estes dados serão usados e por quem? Será tudo tão automático que sequer nos daremos conta de que transmitimos informação a cada instante? Privacidade seguirá tendo o mesmo significado? Que papel deverá exercer o jornalista, o comunicador?  É o tempo certo para perguntas – e para ir em busca das respostas .

Tempo de exploração

 

Quanto a mim, continuo explorando o meio digital e suas possibilidades, levando esse conhecimento e reflexões para assessoria de imprensa, aplicativos de celular e para a 359. A revista eletrônica lançada por estudantes afoitos foi o primeiro lugar em que me deparei com uma espécie de folha vazia, que esperava ser preenchida com algo diferente nas portas do século XXI. Ela voltou com esse mesmo ímpeto e expectativa.

Mas é impossível fazer planos, o destino adora pregar peças. Minha única certeza é que, independente do que for, me forçará – mais uma vez – a abrir horizontes.

 

 

sobre o autor

Andreia Odriozola
Jornalista, tradutora, metida a fotógrafa e amante de tecnologia. Trabalhou no jornal O Sul, portal Terra e em agências de comunicação corporativa e assessoria de imprensa. Atualmente, desenvolve também projetos de conteúdo especial.

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