Rinhas e milícias

 Por Moacir Zandonai Jr.

Um dia desses, um piá impressionou-se comigo. “Puxa, o senhor é viajado mesmo, tio”, foi o que o garoto me disse. Realmente, já viajei muito por aí, nesses anos todos. Mas impressionei-me muito ao visitar Guararipiri Aуopa do Oeste, mês passado, lá pelo norte do Mato Grosso.

Anos atrás, a cidadezinha, de uns oito mil habitantes, tinha uma casa de cortesãs muito famosa em toda a região. A dona do lugar, dizia-me um velho pescador da cidade sem rios, chamava-se Madame Miyagi, uma nissei paulistana.

De acordo com o velho pescador, todas as sextas, afluíam à casa centenas de homens e rapazes, à procura das mais lindas profissionais do sexo em todo o estado. Nas segundas, havia as “Festas dos Ilustres” onde, conta-se, até mesmo ministros e senadores já teriam conferido os lençóis de renda européia, acompanhados de seios quentes e gemidos frios. Havia, ainda, as quartas-feiras, quando era servido um bacalhau; as quintas, famosas pelo carteado, e as terças de bingos beneficentes, onde o brinde era a companhia das garotas da casa. Não é necessário dizer que os bingos eram um tremendo sucesso. Na verdade, a casa de Madame Myiagi era a principal (senão única ) atração da cidade.

Porém, alguns anos atrás, o ciclo natural dos negócios familiares mostrou-se implacável, com a morte de Madame Miyagi e a sucessão de sua filha, Madame Tará, frente à direção da casa. Infelizmente, dizia-me o pároco, Madame Tará, filha também de um cacique da região, não possuía o mínimo tino para a administração de empresas. A casa foi aos poucos decaindo, acabando por fechar as portas, bem como os zíperes de muitos garotos frustrados, que teriam assim de iniciar suas vidas sexuais com as empregadas domésticas, muito raras naquele canto do país.

Para salvar Guararipiri do esquecimento e seus homens mais ilustres da rotina conjugal, o prefeito, lá por 1995, enviou projeto de lei à Câmara Municipal, cujo presidente era seu cunhado, para comprar a casa e o nome Miyagi. Aprovada a lei por unanimidade, a prefeitura então estatizou o antigo prostíbulo, dando-lhe o nome de Casa Municipal de Divertimentos Noturnos para Homens Madame Myagi, ou CMDNHMM. Foram realizados concursos para copeiro, garçom, cortesã, administrador e manobrista de carros, charretes e cavalos, entre outras funções.

Hoje, para desafiar os privacionistas, a CMDNHMM é uma estatal de sucesso, além de incrivelmente lucrativa. Há os Fins de Semana da Alegria, de sexta a domingo, as tradicionais “Segundas-Feiras dos Ilustres”, onde o prefeito e seu cunhado presidente da Câmara são os anfitriões, as “Terças no Cassino”, as “Quartas do Carteado” e as “Quintas das Corridas de Coelhos”. Além disso, graças aos recursos obtidos através da casa, a cidade agora tem saneamento básico, um posto de saúde e uma ambulância, além de duas novas escolas, uma delas profissionalizante, para garantir boas profissionais ao futuro da casa de lazer masculino.

No entanto, apesar de todos o benefícios trazidos a Guararipiri através da estatização da Casa Madame Miyagi, muitas senhoras católicas são radicalmente contrárias à existência da casa. “Só falta legalizarem as famigeradas rinhas de galo, ou darem salário pro jagunço das fazendas deles”, vociferou-me uma delas.

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