Como a morte virou kitsch

 Por Moacir Zandonai Jr.

Sabe como é a sensação de a tua vida já não ter sentido? Pois é. Uma das coisas que a gente mais ama é o nosso ofício, principalmente quando é coisa de família, passada de geração a geração. Está aí o problema. Esse é o meu desencanto: a vida de assassino profissional é algo que já não dá mais prá levar numa boa.

Antigamente, éramos uma categoria profissional muito prestigiada, coisa fina mesmo. Em qualquer roda de bar, era só dizer: pistoleiro, sindicalizado. Pronto, tiro e queda: admiração, todo mundo boquiaberto, o olhinho das crianças brilhando. Caso alguém chiasse, tiro e queda. Hoje, ao contrário, a coisa está de matar: qualquer Zé Mané compra uma arma, enrola um cliente desavisado e sai metendo bronca por aí. Virou coisa de Jeca, de suburbano, sem glamour. Não dá mais status.

Na minha época, éramos artesãos. Cada encomenda tinha o seu momento único, tinha toda uma sensibilidade, um tratamento diferenciado a cada uma das vítimas. A morte por contrato era, antes de tudo, uma arte. Um corpo nunca caía igual a outro. Hoje, já não é mais arte coisa nenhuma. É kitsch, sei lá como se escreve esse troço. A droga da TV, com os Cidade Alerta da vida, escancarou as nossas técnicas. No cinema, dos Van Damme aos Charles Bronson, a morte até parece perfeita, mais que a morte real, mas ninguém permanece com o cabelo penteado depois de levar três tiros na fuça. É bobagem, frescura holiwoodiana.

Sem falar, é claro, no hora única e reveladora que era quando a família achava o fruto do nosso trabalho, que é o presunto de um pai ou de um filho. O momento mágico de trauma e revolta, um turbilhão emocional indescritível que, para escapar da polícia, o artista nunca pode presenciar, infelizmente. Pois é, nem mesmo isso é preservado: nem cinco minutos depois da morte, o defunto nem esfriou, e já me aparecem fotógrafos, cinegrafistas e repórteres de TV, reproduzindo e transmitindo tudo. Com essa reprodução adoidada, a obra toda perde toda a magia, e eu não acho legítimo faturarem assim em cima da criação artística dos outros. E os nossos direitos autorais, eles pagam?

Enfim, sei lá, acho que cansei dessa vida. Vou mudar de ramo, matar só nas horas vagas, ou só fazer uns bicos de vez em quando, sempre aparece um corno indignado. Vou virar motoboy.

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