Cidade virtual

 Por Jaime Vieira

Quando estamos na frente do computador esquecemos do tempo, não o vemos passar. Parece que o mundo à nossa volta perde o sentido, e a realidade toma nova forma, passando do físico para o virtual.

Encontrava-me, como em várias vezes, à noite em frente ao meu computador, produzindo linhas como estas que agora escrevo, preparando a crônica do dia seguinte. Já bastante cansado, só pensava em enviar o texto via e-mail e depois dormir, mas, entre um pensamento e outro, adormeci.

Na verdade, fiquei em um estado de semi-consciência, letárgico, onde as ideias não mais juntavam-se. Sob estas circunstâncias ocorre o inusitado, produto de uma mente alterada, parece que a tela do computador vai crescendo, tornando tudo à volta e, quando dou por mim, passo a viver dentro do computador, entre bits e bytes, diretórios, pastas, bancos de dados, sinais eletrônicos e impulsos eletromagnéticos.

Procuro ficar calmo, afinal, como posso estar aqui se meu mundo é real? Não permito que o medo seja mais forte que meu instinto de curiosidade e saio, então, explorando aquele novo mundo que se abre à minha frente. Caminho entre os diretórios, passando pelos programas, e dou-me por conta de que estes diretórios são como portas que me permitem entrar.

Tenho um programa, instalado por meu filho, chamado Sim City. Trata-se de uma cidade onde quem está do “lado de fora” pode construí-la, modificá-la, alterá-la. Como é estranho, a cidade, na minha percepção, está ali, os prédios são perfeitos, as ruas, as casas, os hidrantes, os canos. Tudo parece real, a não ser pelas cores que parecem muito artificiais. Aproximo-me de uma das casas e tento abri-la. Para minha surpresa, apesar da maçaneta, não se abre a porta. Tento ver através da janela, mas nada encontro, somente uma claridade que é emitida pela própria.

Sinto falta de alguma coisa. A cidade parece perfeita. Mas aonde estão as pessoas, os animais, as árvores, as crianças? Pois, vejam só, o principal falta nesta cidade: a vida.

“Aqui não é o meu lugar”, penso eu, trato então de voltar. Caminho até o diretório-raiz, onde fico esperando, aguardando. A tela do computador me devolve ao mundo real. Abro os olhos e percebo que ainda não terminei a crônica. Preparo mais algumas linhas e a envio por e-mail.

A informática, as tecnologias de ponta, são muito importantes ao homem, mas nada é maior que a vida real. Desligo o computador e vou dormir. Até amanhã e bons sonhos!

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