Carta a um anjo

Por Leonardo Carvalho

Depois de tanto e tantas que passamos juntos, essa é a carta que eu quero escrever para a Carolina um dia…

 

 

Porto Alegre, 11 de março de 2003

Meu Anjo:
Diminuiu um pouco a correria  da redação agora. Terminei minha matéria, organizei os dados para amanhã e acabei de tomar um café (claro que você estava presente). Dei uma ligada para os meus pais e estão todos bem. Mandaram lembranças.

Estava olhando a chuva – velha companheira de devaneios – batendo na janela durante o almoço e me ocorreu um daqueles pensamentos de “como-devem-estar-as-coisas-em-casa?” que tanto me aliviam a tensão cotidiana. Tudo bem, meu anjo?

É engraçado, depois de tanto tempo chamar a sua casa de minha casa. Talvez leve ainda uns bons anos para que eu me acostume… Na verdade, boa mesmo é a sensação da eterna novidade entre nós, cada dia é um conhecer você de novo, e do conhecer você de novo, me apaixonar por você de novo.

Talvez seja por isso que certos hábitos ficaram apesar dos anos, como o da carta semanal que cultivo com tanto carinho. Verdade que surgiram outros novos e excelentes: o chá antes de dormir, servido para você na cama, diante da impossibilidade de servir o café da manhã (de novo a tensão cotidiana…pelo menos ela causa uma certa originalidade); as viagens, às vezes sem rumo; os estudos juntos até as tantas, você no Direito, eu na Comunicação. A Charlotte (lembra de como ela estranhou quando mudou de casa?). Precisamos jantar juntos hoje à noite, soube de um restaurante novo que serve uma massa excelente.

Estou meio melancólico – efeito da chuva e do céu cinza – e acabei lembrando de uma música antiga: “It’s time to go again, to your blue room” – é hora de voltar ao seu quarto azul. Uma confusão essa carta, não é mesmo?

Na verdade, o que eu queria era escrever uma carta para dizer o quanto agradeço aos céus até hoje por ter encontrado você. Como agradeço por ter crescido tanto ao seu lado… Olhe em volta: o mundo, as pessoas parecem ter se perdido.

Homens e mulheres parecem estar com medo de olhar uns nos olhos dos outros e admitirem que precisam uns dos outros e precisam sentir amor; mentem para si mesmos e para sua natureza dizendo-se autossuficientes. 

Nós perdemos o medo! Perdemos o medo de dizer eu te amo, eu preciso de você, eu confio em você. Hoje acordei de manhã sentindo que grande parte do esforço que faço em levantar e ir ao trabalho – encarar o mundo de cabeça erguida – devo a você.

Lembro de uma coisa que disse a você quando começamos a namorar: vamos subverter o mundo com amor! Lembra?


Hoje sinto nas pessoas uma ponta de vontade de sentir por alguém o que sinto por você. E uma mínima parte da reciprocidade…

E, falando em tudo isso, viu que dia hoje?

Sei que faço isso com uma certa regularidade, mas quero repetir o gesto de cinco anos atrás: Carol, quer namorar comigo?

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