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 Por Daniel Rocha

“Do meu pai pouco lembro. Só sei que ele foi embora muito cedo, talvez quando eu tinha uns quatro anos. Minha mãe me criou até os dez, quando foi morta à queima-roupa por um drogado; o tiro não era para ela…mas foi ela que recebeu. Eu vi tudo isso! Na minha frente… foi quando eu matei. Tinha a arma de meu pai nas mãos e atirei. Depois, meus tios passaram a me criar. Nesta época, eu comecei a me drogar e começaram meus primeiros problemas com a polícia. A coisa foi se aprofundando até que, um dia, meus amigos traficantes tiveram a ideia de fugir de casa. Para onde iríamos, não sabia.

Na época, nós gostávamos de fazer arruaça pela rua, transar e usar drogas (principalmente heroína e L.S.D.). Fomos para um lugar e começamos a vender drogas e a roubar para sobreviver. Um dia, eu arranjei uma namorada que, por sinal, também era viciada. Cara, eu amava aquela garota! O nome dela era Kelly. Nós dois e meu melhor amigo chegamos ao fundo do poço. Freddy, meu amigo, morreu na prisão onde nós estávamos. Ele havia se prostituído para conseguir cocaína. Ingeriu cocaína envenenada e morreu se retorcendo na minha frente. Eu chorava e gritava ao mesmo tempo. Nunca apanhei tanto em minha vida! Até hoje não sei como eu consegui sobreviver. Eu rezava todos os dias para morrer, mas isto nunca aconteceu. Um dia, meus amigos e eu iniciamos uma revolta dentro daquela prisão e conseguimos fugir. Decidimos ir embora daquela cidade maldita.

Livre de novo, eu reencontrei Kelly. Nós e meus amigos já estávamos no aeroporto prontos para ir embora, quando chegou a polícia. Todos gritavam: “Eles vieram nos prender.” Um amigo meu reagiu e começou o tiroteio. Eu já estava cheio de tudo aquilo e decidi sair correndo com a Kelly. Nós estávamos quase a salvo quando três tiros acertaram-na. Eu nem pude dizer ‘adeus’ a ela, assim como não pude ficar chorando ao seu lado, pois os policiais vieram atrás de mim. Nunca corri – nem chorei – tanto em minha vida!

Quando terminou, meus amigos estavam novamente na prisão (ou no necrotério). Então decidi ir até a casa de minha falecida mãe. Peguei uma arma carregada, coloquei-a dentro de minha boca, fechei os olhos e lembrei de toda a minha vida. Abri os olhos e disse a mim mesmo: “Você não tem mais nada a fazer neste mundo”. Puxei o gatilho…

O revólver não atirara. Verifiquei para ver qual era o problema. Haviam cinco balas, e o meu tiro foi justo onde não havia bala. CINCO balas! Pensei por um minuto e disse: “Sinto muito, cara, mas não está na hora de você partir”. Esse foi o fundo do poço.

Decidi voltar para a cidade onde meus tios moravam. Quando cheguei lá, descobri que eles haviam se mudado. Sem lugar para ir, entrei numa clínica de drogados. Foi difícil, mas eu venci. Quando saí de lá, comecei a andar sem destino por aí até arrumar um emprego. Um dia, eu estava vagando pelo meio da rua, quando ouvi alguém gritar o meu nome. Era meu tio! A gente se abraçou, chorou, conversou muito e voltou a morar junto: eu, meu tio (agora viúvo) e o Dino (um diabo-da-Tasmânia de estimação).

Eu já fiz de tudo. Já vi de tudo. Já senti de tudo. Cheguei ao fundo do poço, vi a face do Demônio de perto. Depois voltei. Tudo valeu. Não digo que foi bom, mas valeu como experiência. Foi bom para sair da vida que eu levava. Eu acho que devemos aproveitar inteiramente o presente, pois o passado não volta (exceto nos meus frequentes pesadelos), e o futuro talvez não chegue.

As pessoas dizem que eu sou um suicida. Talvez elas estejam certas. Se sou feliz, não sei. A felicidade é um sentimento incerto. Tudo o que sei é que, pelo menos, estou de bem com a vida. Esta é minha história.”

Richard Irwin Paulstaff

O que vocês acabaram de ler, acreditem ou não, é ficção. Embora, provavelmente, alguém tenha se identificado com um ou outro fato, essa história não foi – repito: não foi – inspirada em fatos reais e não é – repito: não é – a história de minha vida. Richard Irwin Paulstaff é o protagonista de “OS HERÓIS VIVEM PARA SEMPRE”, que ainda está sendo escrito (estou fazendo propaganda sim, e daí?). Se vocês não tiverem gostado desta “autobiografia”, tenho a desculpa de que ela foi escrita quando eu tinha 15 anos. No caso caso de vocês terem gostado…bem, isto é apenas o começo…

 

(Publicado originalmente na Edição 1, de 23 de março de 1998)

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