Um dia desses num prédio qualquer

Por Fábio Abreu

“Vou concorrer à vaga de síndica”. A frase, largada no meio da sala de estar, durante o decorrer da novela, entre uma e outra crise de ciúmes da “Eduarda” contra o “Marcelo”, não pôde deixar de surpreender o marido. “Como é que é, Matilde?”, perguntou, com um meio sorriso nos lábios. A mulher explica melhor. É que, à tarde, ela havia levado as crianças à pracinha e acabou conversando com a Jurema, do 302. Ela havia dito que estava acabando o mandato do síndico e que as novas eleições seriam na próxima reunião de condomínio. O meio sorriso no rosto do marido se transformou em uma gargalhada demorada. “Mas o que tu entende disto, mulher”? Matilde, já indignada por causa da gargalhada de Oscar, resolve ir para a cama mais cedo, sem terminar de assistir à novela, fato que, segundo lembrava Oscar, não ocorria desde que ele havia bebido demais num jantar da família e vomitou no colo da mãe de Matilde. “Essa mulher tá ficando louca”, pensou Oscar. antes de desligar a TV e ir para a cama tentar acalmar a Matilde. Infelizmente, a Matilde já estava dormindo, “ou fazendo de conta que estava”, pensa o Oscar. “Amanhã me entendo com ela e tiro essas idжéas bobas da sua cabeça”.

Nove horas da manhã e Oscar levanta atrasado para o serviço. “Mas onde diabos esta mulher estava com a cabeça que não me acordou no horário?”. Corre para a cozinha e, na mesa onde todas as manhãs estava servido o cafépreparado por Matilde, só tem um bilhete: “FUI FASÊ CAMPANHA. DEICHEI AS CRIANÇA NA VIZINHA, VOLTO TARDE”. Oscar pega uma fatia de pão e sai porta afora para não perder o ônibus. “Mas o que é que deu nessa mulher? Nem escrever um bilhete ela sabe, quanto mais ser síndica de um prédio”, pensa Oscar, preocupado, a caminho do trabalho.

De noite, Oscar chega em casa e é obrigado a aceitar o fato de que já estava desconfiado. Na porta da casa, a vizinha à espera com as crianças e com um recado de Matilde. “Ela disse que vai ter que preparar a plataforma de campanha com a Jurema, a candidata a vice-síndica, e não ia poder preparar o jantar. Pediu para o senhor dar banho nas crianças antes de botar elas na cama e para não esperar ela para dormir, pois ela vai chegar tarde”. Assim era demais, pensou Oscar. A mulher estava exagerando. Deu banho nas crianças, botou elas para dormir e foi resignado dormir, não sem antes, por via das dúvidas, colocar o relógio para despertar.

Oito horas da manhã e Oscar acorda com o relзgio despertando. Pelo menos Matilde está ao seu lado. Mexe na mulher para que ela acorde e vá fazer seu café. “O que é? Que é, Oscar”? “Meu café”, resmunga Oscar. “Olha, Oscar, cheguei muito tarde da reunião de campanha e não posso fazer teu café. Antes de sair, não esquece de me deixar dinheiro, pois tenho que bater alguns xerox do meu programa de campanha para distribuir para os outros moradores”. Na viagem para o serviço, Oscar vai sentado ao lado de Jonas, do 809. “Quer dizer que a tua mulher vai ser síndica, hein?” Oscar sente que está vivendo um pesadelo. Se na campanha a mulher já está deixando ele e a família daquele jeito, como é que seria quando ela estivesse empossada no cargo? Sim, pois ele tinha a certeza de que a mulher ia ganhar. Afinal, quem estava concorrendo com ela era o Manoel, do 112, um banana, segundo fofocavam todos os moradores. De repente, vem-lhe uma idéia à cabeça. Seria a salvação. Passa todo dia pensando e repensando sobre seus planos de vitória.

Chegando ao prédio, vai bater na campainha do apartamento de Jocasta – a maior fofoqueira do prédio, pedindo uma xícara de açúcar emprestada. Conversa vai, conversa vem, coisa normal com a Jocasta, surge o comentário. “Acho que a Matilde vai ganhar a eleição para síndico”, diz a Jocasta. Oscar sente que é sua chance. “Pois é vizinha, veja só, uma mulher que não sabe nem administrar a própria casa. Se não fosse eu, as contas todas estariam vencidas, pois a Matilde há muito esquece o dia de pagá-las. Quem faz a limpeza da casa sou eu, pois a Matilde é muito preguiçosa. Eu é que organizo todo o orçamento e planejamento familiar, porque a Matilde é muito confusa. E agora, veja só, minha mulher quer se candidatar a síndica”. Os olhos de Jocasta brilham e Oscar percebe que o veneno está lançado. Se despede da vizinha e vai para casa, se sentindo sereno e feliz por ter cumprido sua missão.

Chega o dia da reunião do condomínio. Todos os moradores votam em segredo enquanto o antigo síndico apresenta sua prestação de contas. Na hora da contagem dos votos, para tristeza de Oscar, Matilde ganha por maioria esmagadora dos votos. “Não pode, meu plano era infalível”, pensa Oscar. Perdido em devaneios, mal ouve o pronunciamento do presidente da mesa anunciando que a vitória de Matilde era muito bem-vinda, principalmente pelo fato de poderem contar com o apoio do marido de Matilde, Oscar, que sabia como poucos administrar negócios, segundo palavras de Jocasta.

 

(Publicado originalmente na Edição 1, de 23 de março de 1998)

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