O papo na sala de Luis Fernando Verissimo

Por Leonardo Carvalho, Moacir Zandonai Jr. e Nestor Tipa Júnior

 


O pior de tudo foi conter o nosso deslumbramento diante do fato. Iriamos entrevistar o maior cronista do país: Luís Fernando Veríssimo.

Pernas bambas, fomos muito bem recepcionados por dona Lúcia Veríssimo: “Esperem aqui guris, que eu vou chamar o Luís”. E veio o “seu” Luís. E nunca fomos tão guris diante de alguém antes.

Com a paciência, tranquilidade e economia de palavras habituais, o “seu” Luís respondeu às nossas perguntas e tivemos um bate papo bem legal!

Leonardo: Como começou o seu contato com a literatura? O primeiro contato que a gente tem com a literatura, ainda mais você que é filho do Érico Veríssimo, obviamente, tinha uma biblioteca. Ele vivia sempre te dando livro, ganhava um livro para criança, vai crescendo e vai aprendendo a escrever. Como foram esses primeiros passos?

LFV: Bom, o primeiro contato, como tu já falaste o óbvio, por ser filho de escritor, vivendo numa casa em que o livro era uma coisa importante. Além de ter livros, ter biblioteca, tudo era uma parte importante da nossa vida, da vida do pai. Ele tinha amigos no campo literário. Então na minha infância, de certa maneira, vivi nesse ambiente em que o livro era uma coisa muito importante. Mas apesar de tudo isso, demorei um pouco para começar a ler livros. Eu era um apaixonado por quadrinhos. Então o pai se preocupou por achar que eu estava muito nos quadrinhos. Mas naturalmente passei dos quadrinhos para os livros de aventura, para o livro infantil. Aí então comecei a explorar mais a literatura mesmo. E o fato de estar numa casa que havia livros de certa maneira despertou a minha curiosidade, até porque eu li, quando tinha doze anos, um livro do Freud que tinha na biblioteca do pai. Obviamente não entendi a metade, mas pelo menos o fato de o livro estar escondido ali me levou para esse caminho.

Leonardo: Isso deve ter ajudado com as conquistas amorosas também. Chegava para a menininha assim: “Olha, o Freud disse tal coisa…” (Risos). Dizem, eu não sei se é verdade, que essa coisa da literatura é genética. Você começou na biblioteca do seu pai. Será que tem alguma relação? Apesar que você seguiu um caminho diferente do Érico. Ele era um romancista e você foi para a crônica. Essa divisão foi uma coisa natural ou…

LFV: Até essa questão da genética, eu achava pelo fato de eu ser filho de escritor que eu não ia ser escritor. Não tinha nenhuma ideia de que eu ia ser escritor, até porque eu comecei tarde. Comecei a escrever com trinta anos justamente porque eu entrei no jornalismo. Comecei na Zero Hora, e naquela época não precisava ter diploma. Então quando eu comecei a trabalhar em jornal é que eu descobri que eu sabia escrever. Tinha lido muito, sempre fui um leitor voraz, mas nunca tinha escrito nada. A não ser algumas traduções que eu tinha feito do inglês, só quando eu comecei no jornalismo. Mas se há algo genético, acho que não.

Moacir: No Rio, antes de voltares, tu chegastes a trabalhar com publicidade…

LFV: Não, no Rio não. Quando eu voltei para Porto Alegre foi quando eu comecei a trabalhar na MPM Propaganda, que não existe mais.

Leonardo: E como é que foi este trabalho? Você mexia com a parte de texto ou com arte?

LFV: Ilustrações. Até quando eu fui para o Rio procurar emprego, fui na área de arte. Como eu disse, não tinha nenhuma ideia de que eu seria escritor, de que eu sabia que sabia escrever. Então procurei trabalho. Como eu tinha jeito para desenho, procurei na área de arte. Não conseguia, acabei indo para outro caminho. Mas quando voltei para Porto Alegre, eu comecei a trabalhar na Zero Hora e em seguida comecei a trabalhar com propaganda na MPM, mas na área de redação. Desisti da arte.

Leonardo: Aquela propaganda de uísque não foi sua, a do Chivas…

LFV: (Risos) Não, não…

Leonardo: Aquela foi excelente. Diz-se que o processo de escrever é que nem o homem quando está apaixonado: Ele tem várias fases. Até li um poema no ônibus que bateu bem com isso. Era assim: “No começo os amores são Vinícius, depois eles são Drummond e no final eles são Bandeira”. Como é que foi esse processo de amadurecimento?

LFV: Não tenho muito o que descrever daquela época. Não sei bem qual era o meu estilo na época. O que me surpreende muito as vezes, quando eu vejo coisas que eu tinha escrito naquela época, é que eu escrevia muito. Com o tempo, o texto foi ficando mais conciso. A única diferença que eu noto é que eu escrevia muito mais naquela época.

Leonardo: Até pelos livros a gente nota isso. Por exemplo: Ed Mort, Analista de Bagé… As crônicas são maiores, são mais consistentes, entram mais citações literárias. Hoje em dia são mais reduzidas.

LFV: É, isso é uma coisa que vem com o tempo, não sei se é uma vantagem. Como se diz, mais com menos palavras.

Leonardo: Porquê crônica? Isso foi natural também? Deixa eu dar um exemplo pessoal, porque desde que eu comecei a ler, lia muito aquela série, a coleção vaga-lume, aqueles livros de aventura. Aí eu comecei a escrever e só saiam crônicas. Então foi natural?

LFV: Foi uma coisa que aconteceu por acaso, porque eu comecei a escrever no jornal. E a literatura que se faz em jornal é, obviamente, a crônica, que é uma mistura de jornalismo e literatura. Então foi por isso, não por escolha minha, foi quando me deram um espaço assinado para fazer. O cronista principal do jornal na época era o Sérgio Jockman. Quando ele saiu do jornal, fui convidado para ficar no lugar dele. E o que ele fazia era crônica. E, na verdade, nunca fiz outra coisa. Não foi uma escolha minha, assim como uma coisa que apareceu. Quando voltei do Rio, casado, já com uma filha nascida, não tinha nada para fazer, então me ofereceram essa vaga no jornal.

Moacir: Nessa entrevista agora que saiu contigo na revista “Época”, antes do carnaval, tu comentas que começaste a escrever exatamente na época da ditadura. Então foi uma época que tu aprendeste a dizer muito não dizendo nada. Como era o cotidiano na redação do jornal naquela época?

LFV: No meu caso tem o fato de ser a Zero Hora, que naquela época era um jornal muito precário, não tinha nada a ver com a potência que é hoje. Então a gente nunca sabia quando ia sair o pagamento, o salário. Era um lugar apertado que a gente trabalhava lá no Centro. Então, além das dificuldades da época, a própria repressão, a censura e tudo mais. Ainda tinha esse papo de estar trabalhando num jornal que era precário e difícil, que tinha poucos recursos. Naquela época quem dominava o jornalismo aqui era a Caldas Júnior, com o Correio do Povo, a Folha da Tarde…

Leonardo: E como era o clima entre os jornalistas? Tinha uma coisa que era interessante de se notar nos textos: Quando a gente lê com doze anos de idade era uma coisa. Depois a gente amadurece e começa a ver um pouco além. A gente vê nos personagens traços da época em que se vivia, da repressão. E aí entra aquela história de dizer as coisas meio sem dizer. Eu estou dando minha opinião, mas sem alardear muito. Como era entre os jornalistas essa discussão, essa coisa de colocar nos textos…

LFV: A gente vivia sempre testando os limites. Quando o próprio jornal fazia a auto- censura e dizia: “Olha, isso não pode sair porque vai dar galho”, a gente sabia que tinha tocado no limite. Não podia passar dali. Então a gente tentava dizer as coisas até um certo ponto. Era curioso porque sempre se pode dizer muito mais através do desenho do que pelo texto. Por alguma razão para o desenho eles não davam muita importância. Os limites do permitido eram mais amplos.

Leonardo: Tanto que tem um livro do Ziraldo com desenhos daquela época, os desenhos são muito fortes.

LFV: É, o pessoal do Pasquim o Henfil… É que o desenho tem essa conotação de coisa de criança, de brincadeira, então eles (a censura) não davam tanta importância. Agora, o texto era bem controlado. Aqui no Sul havia mais uma autocensura. Os jornais se controlavam, sabiam mais ou menos o que podiam publicar ou não.

Moacir: Diferente do Rio de Janeiro, onde havia uma imprensa alternativa forte.

LFV: É. Em São Paulo, por exemplo, tinha o censor que ia sempre ao jornal, trabalhava dentro da redação. Acho que aqui nunca houve isso. Mas é isso, a gente vivia testando onde podia ir e tentando muitas vezes dizer as coisas de maneira velada, disfarçada.

Leonardo: Como era o relacionamento de vocês (jornalistas) com as outras expressões culturais? Vocês estavam ligados, sabiam o que estava acontecendo, por dentro da situação que o país estava vivendo? Nas outras expressões artísticas vocês também notavam a vontade de mudar a situação seja na música, na literatura propriamente dita?

Nestor: O próprio teatro…

Leonardo: O próprio teatro. Como era essa discussão entre vocês? Se falavam entre si, ou procuravam até divulgar esse tipo de coisa, sai um disco do Chico Buarque com meia dúzia de letras fortes e procuravam divulgar?

LFV: É, a gente sempre tinha muito contato, na medida do possível, com o que estava acontecendo no Rio e em São Paulo. Mas também, mesmo a gente trabalhando na imprensa, nós não sabíamos de muita coisa que estava acontecendo. Viemos a saber depois. Coisa de guerrilha, por exemplo. Sabíamos de companheiros nossos que eram presos e torturados, mas a extensão da coisa a gente só ficou sabendo depois. Mas este contato (com a produção cultural) existia sim. Tinha um pessoal mais de esquerda que fazia conspiração mesmo. Nós nos reuníamos, era uma forma da gente se informar.

Moacir: Hoje a ditadura já acabou, o AI-5 já é história, mas conversando com jornalistas que trabalham em veículos de grande circulação a gente vê que a censura interna é um pouco diferente. Muitas vezes o jornalista barra uma matéria quando toca em algum anunciante ou em algum interesse. Será que esse tipo de coisa, o próprio grande negócio que a mídia de massa virou não acaba sendo uma censura ainda mais eficiente que a do AI-5, com censores nas redações?

LFV: É, isso é uma questão curiosa, paradoxal, não? Na época da ditadura havia a grande imprensa, que era controlada, mas havia a imprensa alternativa, que também era censurada, mas podia dizer algumas coisas. Hoje não existe mais essa via alternativa, só a grande imprensa. Não existe mais o jornal alternativo.

Moacir: Hoje em dia o que a gente tem de maior expressão seria a Caros Amigos. Até há poucos anos atrás teve a Atenção, uma revista com matérias ótimas mas que acabou não durando.

LFV: É, hoje não tem a imprensa alternativa como antes e a grande imprensa tem seus interesses empresariais. Os grandes jornais pertencem a grandes empresas que têm seus interesses. A gente fala do “pensamento único” na imprensa brasileira, que é toda a favor de um certo tipo de economia, aberta, mercado, e não tem alternativa para isso, não?

Moacir: Corte de gastos, principalmente na área social.

LFV: É, não existe a censura ostensiva. Por exemplo, eu posso escrever o que eu quiser, pelo menos a minha experiência nos últimos anos tem sido essa, apesar de eu estar escrevendo até há pouco no Jornal do Brasil – agora eu passei para o Globo – o Jornal do Brasil pertence a uma empresa que tem seus interesses e eu sempre escrevi com toda a liberdade, mas a posição do jornal segue o “pensamento único”.

Moacir: E a imprensa brasileira hoje não tem muito espaço para o texto assinado. Além de ti tem mais o pessoal do esporte, o Elio Gaspari, o Zé Simão na Folha, aqui tem também a Martha Medeiros. Como tu vês este aspecto? A gente diz que hoje várias pessoas escrevem os textos nos jornais, mas é como se fosse tudo uma pessoa só. O jornal hoje é muito frio e tem cada vez menos espaço para o texto assinado. Como tu vês isso?

Leonardo: Como você está vendo o jornalismo hoje, como está sendo trabalhado?

LFV: Eu acho que a coisa mais evidente é que é cada vez menor o mercado jornalístico – pelo menos o mercado tradicional – mídia impressa, jornal. Tem jornais de empresas, mas é outro mercado, Relações Públicas, aquela coisa toda. Mas aquela imprensa tradicional está se reduzindo cada vez mais. Aqui no Sul é evidente essa retração de mercado. Eu acho que essa coisa é determinante, de certa maneira determina também o conteúdo dos jornais. Antigamente havia mais jornais; quer dizer, havia mais praça para dar mais atenção ao jornalista, ele mesmo como estrela, vamos dizer assim. Hoje o espaço é mais restrito e se dá mais ênfase à informação, não tanto à opinião ou ao texto mais literário. A coisa é mais utilitária e obviamente menos atraente. Na época dos grandes cronistas havia uma imprensa bem mais legível do que é hoje. Mas eu acho que tudo isso é determinado de certa maneira por esta questão econômica que é a retração da imprensa.

Leonardo: A alternativa para isso seria a imprensa segmentada, e dentro disso a Caros amigos para a gente contar com uma alternativa. Eu não sei se você trabalha com eles.

Moacir: Já publicaram crônicas.

LFV: É, eu tenho colaborado. São alternativas, mas são poucas comparando com aquela época. Pasquim, o Objetivo, o Opinião, havia vários jornais. Aqui tinha o Coojornal. Eu não sei se vocês pegaram o Coojornal.

Leonardo: Não, eu não.

Moacir: Não, mas eu já li a respeito em livro.

LFV: Foi uma grande experiência que fizeram aqui.

Leonardo: Você tem acesso à Internet?

LFV: Tenho, mas eu confesso que não tenho muita paciência (risos)…

Moacir: Demora muito para carregar…

Nestor: A Internet não é hoje um meio que se possa buscar essa alternativa? A Internet não é ainda um meio que tenha uma restrição tão grande. Não há censura em cima, uma pessoa pode ter uma página pessoal e publicar o que quiser. De repente não pode ser este o caminho de voltar um pouco a esse passado da imprensa alternativa?

LFV: Ah, sem dúvida, sem dúvida. Eu acho até que a Internet é revolucionária neste tipo de coisa. Este é um novo tipo de imprensa que está aparecendo. Eu digo que não tenho paciência porque sou viciado em papel, jornal, em cheiro de jornal, então este tipo de texto é um pouco difícil para mim. Mas meus filhos, por exemplo, parece que já nascem sabendo.

Moacir: No início da década de 80 começou a parceria com o Joaquim da Fonseca com os “Traçando”, não?

LFV: Foi.

Moacir: Aliás, foi o primeiro livro teu que eu li que não fosse quadrinhos, pois eu tinha lido antes o Ed Mort, o sequestro do zagueiro central, e tinha lido também o Analista de Bagé em quadrinhos. Esses tempos até achei num sebo. A LPM não publica mais em formato grande. No Brasil, a única cidade que ganhou um “Traçando” foi Porto Alegre. Qual outra cidade que aqui no Brasil mereceria um “Traçando”? Qual a cidade que tu gostarias de escrever um livro de crônicas?

LFV: O Traçando Porto Alegre foi um livro que eles aproveitaram crônicas antigas minhas. Não foi feito especificamente…

Moacir: Uma coletânea.

LFV: Uma coletânea, coisas antigas. Uma outra cidade que eu tenho alguma experiência de vida é o Rio de Janeiro, pois eu vivi lá mais de quatro anos. Acho que seria o Rio.

Leonardo: Como é essa experiência do “Traçando”, começou com o Nova York. Deve ser gostoso de fazer porque você é uma pessoa que viaja muito.

LFV: Essa foi uma ideia do Joaquim da Fonseca, que teve uma coincidência de ele ir para os Estados Unidos quando nós estávamos morando em Nova York. Então eu mandava crônicas de lá para a Zero Hora e outros jornais, e ele estava lá fazendo um curso. Ele também desenhava, na rua, tipos nova iorquinos, paisagens. Então ele teve a ideia de juntar as duas coisas: Os desenhos dele e os meus textos. Mas só que o livro demorou dez anos para ser publicado. Desde que se teve a ideia até que a editora Artes & Ofícios se interessasse em fazer. Aí teve o primeiro e depois teve os outros. A gente ficou dez anos tentando publicar.

Leonardo: Incrível isso!

Moacir: O interessante é que os “Traçando” hoje são vendidos na seção de turismo nas livrarias. E não é exatamente um guia, e a própria revista “Época” nessa matéria colocou no currículo num box. Como agora também o livro do Nélson Motta, “Crônicas sobre Nova York” colocaram como guia de turismo, é vendido também na seção de turismo.

Leonardo: Deve ser uma falha da imprensa. Acho que o pessoal não leu o livro, pega e vê: “Sobre Nova York”. É turismo.

LFV: Foi que nem uma vez. Tem um livro meu que se chama “O rei do rock”, e botaram na seção de música. Pensaram que era uma biografia do Elvis Presley (Risos).

Leonardo: Essas gafes. E falando em música, a sua paixão por música, pelo jazz em si, é tão antiga quanto a literatura e os quadrinhos?

LFV: É. Era de garoto que eu gostava de jazz principalmente.

Leonardo: E jazz Big Band aquele, Sinatra, Glenn Miller…

LFV: Eu gosto mais daquele jazz mais antigo. Louis Armstrong. Sempre gostei muito da música em geral, a música brasileira, mas o jazz é um gosto antigo.

Leonardo: E quando começou o Jazz 6?

LFV: Bom, o Jazz 6 começou a três anos mais ou menos. Mas eu aprendi a tocar nos Estados Unidos. Quando eu vim para Porto Alegre me convidaram para participar de um conjunto, isso foi em 60. Eles tocavam em bailes.

Leonardo: Aí você começou a tocar com eles.

LFV: Mas aí eu parei, eu saí do conjunto. Fui para o Rio, parei durante anos. Depois que eles começaram a se reunir outra vez, tirei a naftalina do saxofone (risos) e voltei. Mas esse conjunto, o Jazz 6, só a três anos.

Moacir: Tu começaste a tocar jazz na escola nos Estados Unidos porque eles não te emprestavam os instrumentos.

LFV: É. Eu queria aprender o trompete. Na época eu tinha 16 anos.

Leonardo: Inclusive tem um livro do Érico que ele cita uma viagem de vocês, o “Solo de Clarineta”. Você era só o Fernando…

LFV: Pois é. Tinha o trompete, mas não me emprestavam. Fiquei no sax mesmo.

Moacir: Voltando um pouquinho para a profissão: Teve uma entrevista tua que eu li a anos atrás, que tu dizias que o trabalho de escrever não era exatamente um trabalho prazeroso, mas é sempre melhor do que bater pedra na rua. Até hoje me lembro dessa frase que me chamou bastante a atenção. Como é que é, tu escreves num nível industrial, é o ganha pão. Como é que é a rotina, o que tu lês do dia a dia para compor os textos, acompanhas o quê da vida nacional, dos costumes. Seguido vira e mexe agora nessas histórias de verão, tu falas muito do cotidiano das pessoas. O que tu acompanhas?

LFV: Bom, para fazer os comentários, a crônica diária, eu tenho que ler muito, me informar bastante, ler jornais. Então eu leio os principais jornais do Brasil: Folha, Estadão, Jornal do Brasil, O Globo, os jornais daqui. Mas toda essa circulação que eu tenho para escrever, essas coisas mais de costumes, enfim, é da minha vida, tenho 62 anos e tenho alguma bagagem.

Leonardo: Mas o mais interessante é que desde os primeiros livros você tem essa sensibilidade de pegar pontos do ser humano.

LFV: A gente ouve muitas histórias. A história que a gente ouve contada, até uma frase que a gente ouve sugere uma história, uma crônica.

Moacir: A gente teve aula no segundo semestre com o Tatata Pimentel, e ele é um fã declarado da crônica. Então ele nos deu um texto maravilhoso do Fernando Sabino que ele dizia que estava andando na rua empurrando o tempo com a barriga até que surgisse algum assunto para escrever. O Tatata fala que a crônica pode surgir da coisa mais banal, mas só quando ela é bem feita, acaba virando imortal. Agora em setembro eu peguei a velhinha de Taubaté para ler. E há pouco tempo atrás eles filmaram o Ed Mort, que é um texto mais antigo. Tu tens o hábito de pegar algum texto mais antigo de dez anos atrás e reler?

LFV: Às vezes, eu até tenho que confessar, pego uma antiga e dou uma perfumada (risos), pelo menos aproveito a ideia. A crônica é um gênero generoso, porque na crônica cabe tudo. Se você quer fazer ficção, um comentário político, um ensaio, você pode fazer, porque na crônica cabe tudo.

Leonardo: Além de ser muito gostoso de fazer, porque é como você sentar na sala com os seus amigos e: “Ó, eu vou contar uma história agora”.

LFV: É justamente essa liberdade que você falou de qualquer coisa ser uma crônica. Tem até aquele velho truque que a gente usava e que hoje não dá mais para usar, que é fazer crônica sobre a falta de assunto. Não se tem assunto, então se faz uma crônica inteira sobre a falta de assunto.

Leonardo: O León Eliachar, que é um cronista excelente, que até foi assassinado… Ele tinha uns dois ou três livros que tinham o zero, o zero ao quadrado e o zero ao cubo, que os três livros tem uma crônica sobre a falta de assunto. Ele enche umas quatro ou cinco páginas. É bem manjada.

Moacir: Às vezes tem umas crônicas tuas também que é um diálogo. Rápido, curto, frases curtas, num ritmo fabuloso e que sempre termina de uma maneira surpreendente. De onde tu tiraste isso, de escrever uma crônica desse tipo?

LFV: Isso é um gosto que eu tenho pelo diálogo, e eu acho interessante isso de poder contar uma história só com diálogos, sugerir quem são as pessoas só para ver o que as pessoas estão dizendo.

Leonardo: deve ser um pouco dos quadrinhos isso…

LFV: É possível, pode ser dos quadrinhos, do cinema…

Leonardo: Gosta de cinema. Cinema europeu…

LFV: Cinema em geral.

Leonardo: Qual foi a tua primeira experiência com cinema? Lembra do primeiro filme?

LFV: Não, não lembro. Comecei a ver cinema lá pelos cinco ou seis anos. Nem era tão falado assim.

 

Moacir: Nossa vida cotidiana aqui na terra brasileira. Tu tens acompanhado… Acompanhaste hoje (26/02/99) a sabatinada do Armínio Fraga?

LFV: Não deu para ouvir toda, ouvi uma parte.

Moacir: Ele foi aprovado por 26 a 11. E paralelo a isso teve a reunião dos governadores, não sei se tu chegaste a ver alguma declaração do Olívio quando ele saiu.

LFV: Realmente eu passo o dia sem saber nada. Essa hora (8 da noite) é que eu vou ver os jornais e ver o que aconteceu durante o dia. Como é que foi a reunião?

(Nesse momento, a entrevista foi interrompida para relatar os fatos acontecidos no dia em Brasília para o Verissimo).

Leonardo: Em cima desta situação toda que a gente está passando, algumas pessoas sentiram mais na pele o primeiro impacto lá no dia 15 de janeiro e aí agora vem tudo de novo, e a gente vai passar pela crise, por uma recessão. Então o Verissimo como cidadão brasileiro. Como você vê essa situação toda de novo, o Brasil vai passar por um período de recessão?

Moacir: Até porque na copa eu vi uma entrevista tua lá em Paris, decepcionado em relação ao FHC, que exatamente, na época da ditadura, ele foi um dos mais proeminentes intelectuais da esquerda. E é exatamente esse intelectual que vem levando essa política de corte de gastos, não impõe barreiras ao capital especulativo, uma taxa de juros de 42 por cento ao ano. No processo eleitoral, tu abriste teu voto para o Lula e o Olívio. O Lula perdeu e o Olívio ganhou. E hoje a gente vê o plano Real afundando, se já não afundou ainda, e a grande imprensa nunca dá em cores reais o que a gente vê. Como tu vês isso? A reeleição do cara que se colocou com o PFL, que era a ditadura que ele combatia.

LFV: Acho que a grande decepção é justamente essa, porque FHC era um dos melhores, dos mais brilhantes da oposição, representava aquele grupo paulista. Parecia ter um diagnóstico certo da situação brasileira, o que precisava ser feito no Brasil. E quando chega ao poder se alia com o que há de mais reacionário na política brasileira, o velho “Centrão”. E repete todos os métodos, os processos que foram da oligarquia brasileira tradicional. De certa maneira é a nossa geração que chegou ao poder e que não o está desempenhando. Uma geração que de uma maneira ou de outra resistiu à ditadura. Então o sentimento maior que eu tenho é o de decepção, de desencanto.

Moacir: E será que tem alguma alternativa viável para contrapor a isso porque o partido maior que tem a oposição é o PT. Só que no plano nacional já foi para a terceira derrota consecutiva. Inclusive antes de o Lula ser lançado candidato pelo PT, ele declarou que já não tinha condições de concorrer pela terceira vez.

LFV: Acho que foi um erro um erro o Lula ser candidato de novo.

Moacir: Mas qual seria a alternativa hoje?

LFV: Talvez até o nosso Tarso Genro, não sei se ele teria uma projeção nacional.

Moacir: Ele vai se candidatar a presidente do partido em setembro.

LFV: Acho que poderia se experimentar um governo de esquerda no Brasil, pelo menos uma vez. A esquerda é culpada por muitas coisas que nunca fez, que nunca teve poder no Brasil. Então a gente sempre está governado pela reação à esquerda, pelo medo da esquerda. Então talvez se pudesse ter uma experiência de esquerda no Brasil até para a esquerda merecer as críticas.

Nestor: Até o FHC colocou uma vez, em 1994, “Esqueçam tudo aquilo que eu escrevi”.

Leonardo: Aí a gente fica com medo de virtuoses que aparecem. Esses dias a gente estava conversando sobre o Ciro Gomes, que é um cara de cabeça muito boa, foi um grande governador, um grande prefeito, e a gente tem o medo que o cara chegue na presidência.

LFV: Também tem que acabar com esse negócio de eleger um salvador da pátria, um cara bem produzido, bem apresentado.

Leonardo: O brasileiro tem até por uma cultura mais…

Nestor: De repente até é por isso que o Brasil não elege um governo de esquerda. Por causa desse medo.

Leonardo: É que a esquerda para nós é feia pra burro. É o cara barbudo, que fala errado, que veio de baixo, que é metalúrgico, que não tem um dedo.

LFV: O que vão dizer de nós lá fora né? (Risos)

Leonardo: É exatamente isso. O que vão dizer de nós lá fora. Tem que ter um intelectual. Voltando um pouquinho à literatura. Como é o teu relacionamento com outros escritores aqui no Brasil. Jorge Amado, Chico Buarque, que agora está escrevendo, o Rubem Fonseca. Pode-se citar um monte deles…

LFV: Tenho pouco contato com esse pessoal lá do Rio e São Paulo. Jorge Amado era amigo do meu pai, até tive algum contato com ele.

Leonardo: O Scliar aqui em Porto Alegre…

LFV: É, aqui eu tenho mais contato com o Scliar, com o Assis Brasil, com o Sérgio Faraco, esses todos são amigos. A Lya Luft…

Leonardo: De trocar figurinha.

LFV: É, a gente se reúne. Mais com o Scliar, que eu tenho mais contato. A gente acaba trabalhando tanto… Aliás, eu tenho pouco contato com todo mundo, não parece muito. Tem o Tabajara Ruas…

Moacir: Esses dias o Wianey estava substituindo o Ruy Carlos Ostermann no Gaúcha entrevista. Ele estava entrevistando uns professores de português que fizeram um dicionário para estudantes que tem um apêndice que é um aportuguesamento de termos em inglês. E para dar mais ênfase a posição deles, o Wianey e os próprios professores citaram textos teus como, por exemplo, shopping com “x” . “Pô, se o Veríssimo escreve assim, porque está errado”? Como tu reages quando alguém usa uma obra tua como referência? Se mestrandos ou doutorandos que vem te procurar para usar uma obra tua como referência para uma tese ou dissertação?

LFV: Não, o que tem é pedidos para citar textos em livros didáticos, às vezes desenhos ou tiras. Para usar em aula não sei, mas ninguém nunca pediu permissão. Mas tudo bem, não tem problema. Mas para publicar em livros, isso acontece muito.

Leonardo: Isso é um ponto. Quem escreve lida com a língua. Como é o teu relacionamento com a língua portuguesa?

LFV: Olha, eu não sou muito bom com a gramática não, mas a gente deve usar a língua livremente, claro que respeitando o básico, mas tem que ter uma certa liberdade. Até dá para fazer uma barbaridade de vez em quando.

Leonardo: Ainda mais um gênero como a crônica, que você tem uma coisa mais global. É muito mais interessante você usar o jeito que as pessoas falam, muito mais coloquial.

LFV: A língua é uma coisa viva.

Leonardo: É um crepúsculo o diálogo hoje em dia. Mário Quintana que me desculpe…(risos).

Nestor: Tu falaste sobre tiras. E há pouco tempo tivemos toda aquela repercussão sobre o fim de “As Cobras”, que saíram da Zero Hora. Tu ainda tens a família Brasil. Tu colocaste que gostavas muito de quadrinhos. Então isso certamente veio deste gosto.

LFV: É, eu sempre gostei muito de quadrinhos, então quando eu passei a ter um espaço no jornal, eu aproveitei para fazer quadrinhos.

Nestor: Era um espaço que tu tinhas e aproveitava…

LFV: É, mas eu parei de fazer as tiras agora depois de muitos anos para diminuir um pouco o meu ritmo de trabalho.

Moacir: E os livros de versão quadrinizada, como o Analista de Bagé e o Ed Mort. Como surgiu essa ideia? Foi ideia tua ou do quadrinista?

LFV: O Analista de Bagé foi ideia da editora, que procurou o Edgar Vasquez. Depois eu e o Edgar fizemos durante muito tempo o Analista na Playboy. O Ed Mort foi o jornal O Globo que teve a ideia de fazer os quadrinhos, me propôs. Aí eu procurei o Miguel Paiva para fazer os desenhos. Ele já tinha desenhado o Ed Mort. Foi assim que começou.

Moacir: Agora eu vou falar uma coisa que aqui entre nós quatro só eu e tu dividimos, que é o Internacional. Porque um é gremista e o outro corinthiano.

Leonardo: Sou corinthiano, sou neutro. Mas sou simpatizante do Colorado.

Moacir: Eu particularmente fiquei muitos anos chateado com o Inter, pois eu não concordava com as maneiras que as coisas ocorriam. Como é que tu vês agora com o Inter trazendo Dunga, Gonçalves, toda essa agressividade em matéria de marketing para atrair associados. Tu achas que dá para ter um grande time de novo? Coisa que eu só vi em fotografia.

LFV: Acho que o Inter não só fez uma revolução administrativa, que devia fazer, como o Grêmio já fez há alguns anos atrás com o Fábio Koff. Mas agora o caminho é esse aí, apesar de não ter mudado o estilo de administração, esse negócio de investir em jogador, em promoção, em fazer a coisa na base do espetáculo como foi o lançamento de Dunga. Acho que o caminho é por aí. O esporte profissional tem que ser por aí: Meio espetáculo, meio empresa.

Moacir: Hoje o salário de um jogador pagava o salário de um Inter em seis meses naquela época. O Figueiroa nunca iria sonhar em ganhar isso.

Nestor: Tu colocaste uma vez num quadro do Fantástico, o “Se liga Zagallo”, que o treinador deveria dar uma chance para o zagueiro Régis, do Inter. Régis é um prata da casa. Tu achas que o caminho é esse, investir nas categorias de base, ou então trazer “medalhões”?

LFV: O jogador do time é um patrimônio, tem a identificação maior com a camisa, com a torcida, pode valer muito mais a frente. Mas o curioso é que Grêmio e Inter começaram a ganhar títulos quando trouxeram jogadores de fora, como Ancheta, Figueiroa… Mas deve-se mesclar um pouco.

Nestor: E a paixão pelo Inter veio ao natural ou foi aquela coisa da família do tipo que põe a camiseta no menininho, faz todo um jogo…

LFV: Não, não. Até que o pai era primeiro cruzeirense, depois virou gremista. Mas foi mais por causa daquele time do Inter, o “Rolo Compressor”.

Nestor: Como tu falaste, tu acompanhas muito os jornais, a TV. Como tu vês essa onda de Central do Brasil, de Fernanda Montenegro. A valorização do cinema nacional, levando até a cultura nacional em todos os gêneros. O Gil agora ganhou o Grammy…

Leonardo: Pelo segundo ano que o Brasil ganha. O Milton Nascimento ganhou no ano passado.

Nestor: Pois é. Mas tu achas que isso de algum modo pode valorizar toda a cultura nacional, incluindo a literatura?

LFV: É isso é muito bom para o cinema nacional e para toda a cultura também, levar essa coisa para fora. Até porque o Brasil tem toda essa diversidade cultural. E é bom até para contrabalançar com o período que passamos, para termos uma imagem boa lá fora.

Leonardo: Não só através do futebol e do carnaval, mas também divulgar o Brasil através da Cultura. Mas Veríssimo, e a boemia? Você é de sair muito…

LFV: Não, não, às vezes eu saio com a Lúcia, para ver um cinema, depois vamos jantar, tomar um bom vinho. Mas não sou muito de sair assim, sou mais de sair com a família.

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