Cultura e arte

 Por Leonardo Carvalho

Otto Lara Resende escreveu uma vez: “O jornalismo transforma homens em escritores, contanto que dele se saia…”. Trocando em miúdos, o jornalista pode ser um artista, pode elevar seu trabalho ao nível da arte, conquanto amadureça e saia do nível da informação pura e simples para passar à esfera da crônica literária. Passe da temporalidade para a atemporalidade.

Não vamos discutir o valor expressivo da crônica, que isso todo mundo já conhece. Discutamos como se faz para passar do noticiesco ao literário. Como é que eu saio do jornalismo e passo para a arte? E, se falamos de atuação profissional, podemos ser categóricos em afirmar que essa atuação vai ser tanto mais eficiente quanto melhor tenha sido a formação do profissional em questгo. Isso é fácil de observar num médico, num advogado ou até num pedreiro. Até porque a formação direcionada para a profissão, no caso deles, se dá ou já próxima à entrada no mercado de trabalho ou – caso sério e comum no cotidiano nacional – forçado pelas necessidades de subsistência, sem muita chance para escolhas ou sem reflexo sobre a própria aptidão.

Que dizer então da pessoa que tem a palavra por matéria-prima? Existe escolha profissional? Quando se nota a aptidão para o ofício?

Não sejamos ingênuos a ponto de afirmar que o caso do jornalista e do escritor é um caso а parte e que estas são profissões destinadas a seres especiais. O ponto a que quero chegar com essa reflexão toda tem sua origem na infância, fase em que brincamos de trabalhar das coisas mais variadas, na qual acontece a descoberta daquilo que mais gostamos de fazer.

Nessa fase, é comum os pais do futuro escritor-jornalista brigarem com o pequeno: “Larga esse livro moleque…vai brincar com seus amigos!”, “Estou preocupado com esse menino…ele passa tanto tempo lendo…”. Se bem que posso estar romanceando um pouco a coisa.

O mercado cada vez mais competitivo tem transformado a função jornalista em algo tão técnico quanto uma função administrativa. Sem desmerecer a técnica, mas só a sensibilidade, a formação diferenciada centrada na criação de um senso crítico e estético pode fazer um jornalista escritor. Não só escritor, mas bom jornalista.

Ainda está – sempre está – em tempo. A formação que defendo não objetiva apenas a formação de bons jornalistas, visa muito mais ao desenvolvimento de melhores seres humanos: engenheiros, médicos, pedreiros, mecânicos, escritores…

Bendito aquele que semeia livros à mão cheia, e faz o povo pensar…”

(Castro Alves)

 

(Publicado originalmente na Edição 1, de 23 de março de 1998)

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