“Para um escritor, fronteiras têm menos significado”, diz iraniano em painel sobre o exílio

Por Bruna Lauermann
Direto de Nova York

Quando você pensa na figura de um escritor, quais características vêm a sua cabeça? Para mim, definitivamente são as de um senhor de meia idade, que com certeza usa óculos e tem um tom de voz baixo, que às vezes transpassa fragilidade, mas na maioria das outras faz parecer uma pessoa de muita calma (sorry, escritores jovens que têm ótima visão e estão cheios de energia, vocês não vivem em meu imaginário, rs).

Hossein Mortezaeian Abkenar foi a concretização desse estereótipo. Ele também era um dos painelistas na conversa “Meditação no Exílio” do “PEN America – World Voices Festival”.

Abkenar é iraniano, escreveu o roteiro do filme “No one knows about Persian Cats”, filme premiado no festival de Cannes, e outros dois livros de ficção que retratam a história Irã ao mesmo tempo em que discutem assuntos como o papel da mulher na sociedade iraniana, abuso sexual, guerra, revolução e crise política e social.

O primeiro comentário de Abkenar sobre sua produção veio seguido por uma risada incrédula: “No meu país, os três livros que publiquei nos últimos 10 anos foram banidos pelo governo”, conta.

Abkenar lida com o exílio de forma bastante positiva e enxerga a oportunidade de exercer seu trabalho em outro país como um presente.

“Para um escritor, fronteiras têm menos significado. Quando estava vivendo no meu próprio país, eu me sentia como um forasteiro. O mais importante para um escritor é que ele possa escrever livre, sem amarras e sem censura”, explica.

O que mais impressiona em Abkenar não é o sucesso das histórias que ele escreve, mas a sua própria história de vida. Ele foi obrigado a servir o exército e ir para a guerra pelo seu país. O que, segundo ele, gera muita curiosidade por parte dos leitores.

“Eu nunca escrevi sobre mim mesmo. Mas claro que sempre há um traço meu e das minhas experiências nas minhas histórias. No meu último romance sobre a guerra entre Irã e Iraque, várias cenas eram reais. Todo mundo ficava me perguntando se elas realmente aconteceram comigo. Às vezes eu digo ‘claro, aconteceram’”, revela em tom irônico.

No momento, Abkenar está trabalhando em seu próximo livro, que tem como título Darkness (Escuridão), pois esse é o ponto central de todas as histórias.

“São 60 capítulos que se passam no escuro. Pessoas cegas, um homem que está preso num armário, uma mulher com o rosto tapado enquanto está sendo levada para ser apedrejada, pessoas num abrigo enquanto um bombardeio acontece. E eu também fiquei na escuridão por dois ou três anos escrevendo isso”, comenta o escritor.

Abkenar foi o único dos três painelistas a falar em sua língua materna. Por suas reações, contudo, consegui ver que ele entendia um pouco de inglês. Para mim, isso tudo tornou sua figura ainda mais interessante, e às vezes eu me questionava se era realmente aquilo que ele queria dizer.

VÍDEO: “Estou a apenas alguns anos nos EUA e com certeza ainda há muito para escrever sobre o lugar de onde vim. Passamos por tempos muito difíceis no Irã”, diz Abkenar em sua língua materna

Hossein Mortezaeian Abkenar alimentou ainda mais o estereótipo de escritor que mora na minha cabeça. Esses seres que (racionalmente eu sei, independentemente da idade e do tom de voz) guardam em suas cacholas ideias maravilhosas que nos fazem ver e entender o mundo de uma maneira bem melhor.

sobre o autor

Bruna Lauermann
Bruna Lauermann
Atriz e jornalista. Morou em Porto Alegre, Brasília, San Francisco e agora Nova York. Foi repórter do Aqui DF, do Diários Associados. É idealizadora da série #ouviemny no Instagram @brunalauermann

Deixe uma resposta