Ou tudo ou nada

 Por Anelise Guterres

Estava eu num desses dias em que a gente consegue um tempinho para se divertir, aguardando minha vez de ser atendida no guichê onde se lia “cine 5”. Para minha surpresa, acho que todos resolveram “arranjar um tempinho para se divertir” no mesmo dia que eu, pois dos cinco guichês disponíveis só um ainda não tinha a placa “sessão esgotada”, e isso que era uma quarta à noite. Eu, então, sem outra alternativa, resolvi dar chance ao destino e ir assistir à única opção que me restou. E, já com o tão disputado ingresso na mão, me dou conta que o nome do filme se parece com a minha situação: Ou tudo ou nada.

Já sentada na poltrona, percebi como o porto-alegrense gosta de cinema. Sessões e sessões de filmes, e todas esgotadas. O gaúcho realmente se rendeu à sétima arte.

Ao sair do cinema, notei a reação das pessoas: todas rindo e comentando o filme com uma expressão de alegria no rosto, o que é difícil acontecer ultimamente, época onde no cinema a grande atração é uma tragédia bilionária onde as pessoas saem com os olhos vermelhos de choro.

Gostei, realmente gostei do filme que eu não tinha a intenção de assistir. Ao vê-lo, agradeci às inúmeras sessões esgotadas. Um filme curto, mas bem completo. Certamente não custou milhões e nem precisava, pois a ideia é boa, não desmerecendo outras produções onde as cifras são mais elevadas. Trata de um assunto que é realidade no mundo inteiro: o desemprego. Conta a história de dois homens, desempregados, numa cidade no interior da Inglaterra. Ex-funcionários de uma metalúrgica falida se juntam com mais três desempregados para tirar tudo, ou seja, tirar a roupa. Precisando de dinheiro e cansados de não fazer nada, resolvem arriscar tudo o que têm, inclusive seus valores, no mercado que mais cresce nos quatro cantos do planeta: o do sexo.

The Full Monty ou Ou Tudo ou Nada, nunca entendi mesmo os critérios usados no Brasil para a conversão dos títulos estrangeiros para a nossa língua. É, em boa parcela, mérito dos atores, é um filme que trata de assuntos delicados, que tocam o espectador de uma maneira divertida. É um filme que, repito, fala do desemprego e, por isso, fala também de brasileiros. Poderíamos identificar qualquer um dos personagens com nossos desempregados, salvo pela cobertura do seguro desemprego, mas que não é discussão para agora. A grande jogada do filme é que os personagens não querem só um emprego, eles querem fazer o que gostam de fazer e fazer bem. Não é só pelo dinheiro que eles querem trabalhar, é pela honra de fazer o que se acredita e não passar a vida somando números num lugar qualquer. The Full Monty fala disso e isso é a mensagem do filme, lutar contra sabe-se lá o que, arriscar alto por algo que julgamos ser capazes de realizar, provar para quem desconfia do nosso talento que podemos caminhar com nossas próprias pernas rumo às nossas aspirações.

Aconselho qualquer um a assistir ao filme. Não tem como se arrepender. Pode-se, no máximo, discordar do que digo, mas isso, como sugere o texto, é tudo ou nada.

 

(Publicado originalmente na Edição 1, de 23 de março de 1998)

One Reply to “Ou tudo ou nada”

  1. Que belo texto, Anelise, para alguém que estava iniciando ou nem tinha iniciado. As vezes nos deparamos com momentos da vida que são realmente tudo ou nada. Com o tempo amadurecemos e o tudo e o nada modificam seus significados e passam a não ser tão antagônicos assim. Um beijo a todos.

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